A melhor forma de ensinar alguém é promovendo a reflexão
Pr. Herbert Boger Jr., diretor do Ministério Pessoal e ASA - DSA.
Lawrence Kohlberg foi um professor de renomadas universidades norte-americanas. Ele desenvolveu pesquisas na área da psicologia relacionadas à formação ética e moral do ser humano. Nesses estudos, Kohlberg constatou que apenas 3 a 5% das pessoas alcançam o nível mais elevado de competência moral, ou seja, a capacidade de discernir entre o certo e o errado com base em princípios universais. Mas qual seria o caminho para alcançar essa autonomia senão o exercício da reflexão, da análise sobre si mesmo e o mundo?
Ao lermos os evangelhos, podemos notar que Jesus frequentemente fazia perguntas às pessoas quando queria ensinar algo a elas. Esse é um método bastante estratégico. Com questionamentos desafiadores, o Mestre as incentivava a pensarem por si mesmas e buscarem uma compreensão mais profunda da verdade espiritual, alinhada ao que Ele vivia e pregava.
Se Jesus não tivesse feito as perguntas transformadoras que fez, nós conviveríamos ainda hoje com um vácuo de compreensão espiritual, um entendimento raso sobre a ética e a moralidade, a empatia e a compaixão. A nossa teologia seria incompleta. Sim, sua abordagem, que consistia em questionar as convenções e estimular a reflexão com senso crítico, desempenhou um papel fundamental nas crenças e práticas da sociedade; um impacto que perdura por milênios.
Perguntas de Jesus e seus propósitos
Vou, a partir daqui, elencar alguns tipos de pergunta que Jesus fazia, de acordo com o seu objetivo didático.
1 - Perguntas com convite: Ao ver que estava sendo seguido por dois discípulos de João Batista, Jesus lhes perguntou: "O que vocês estão procurando?" (João 1:38). Logo em seguida, os convidou a segui-lo. Esse é o tipo de pergunta que leva as pessoas a questionarem seus desejos e motivos.
2 - Perguntas sobre identidade: "Quem os outros dizem que é o Filho do Homem? [...] E vocês, quem dizem que eu sou?" (Mateus 16:13 e 15). São perguntas elaboradas para instigar os interlocutores e os levar a buscarem uma compreensão mais profunda sobre si mesmos e sobre o Cristo.
3 - Perguntas para o aprendizado: Após contar a parábola do Bom Samaritano, Jesus perguntou: "Qual destes três lhe parece ter sido o próximo do homem que caiu nas mãos dos ladrões?" (Lucas 10:36). A técnica de ensino por meio de parábolas e perguntas desafiadoras é uma maneira eficaz de transmitir lições espirituais.
4 - Perguntas com compaixão: Uma faceta importante dos ensinos de Jesus se mostrava nos momentos de cura. Ele fazia perguntas cujas respostas eram óbvias, como quando questionou um cego: "O que você quer que eu lhe faça?" (Lucas 18:41). Isso mostra que Cristo se importava com os problemas das pessoas e oferecia cura, mas somente se permitissem. Além disso, ele inspirava seus seguidores a também desenvolverem a compaixão.
5 - Perguntas existenciais: As perguntas de Jesus também abordavam questões profundas da vida. Ele questionava a importância das riquezas mundanas (Mateus 16:26), a futilidade da preocupação constante (Lucas 12:26), a priorização das necessidades materiais sobre as espirituais (Mateus 6:25-26), e a confiança na providência divina (Lucas 11:11-13). Além disso, questionava incisivamente sobre o amor, como quando perguntou a Pedro três vezes: "Você me ama?" (João 21:15-19).
A arte de fazer perguntas
Como verdadeiros discípulos de Jesus, devemos aprender a Sua arte de fazer perguntas. Arrisco dizer que precisamos nos preocupar mais em fazer as perguntas certas do que em dar respostas. Fazer boas perguntas e instigar o pensamento, a reflexão e a autoavaliação, além de ouvir atentamente o interlocutor, é uma maneira eficaz de ensinar e que mostra preocupação e amor.
Em seu livro Jesus Is The Question, Martin P. Copenhaver destaca o estilo de ensino de Jesus, baseado em perguntas transformadoras e no ato de ouvir atentamente. O autor relata que Jesus fez 307 perguntas ao longo do seu ministério, e respondeu diretamente a apenas três das 183 perguntas que lhe foram feitas. Uma delas ocorreu durante seu julgamento, quando Pilatos indagou: "Então você é um rei?". Jesus respondeu afirmativamente, declarando: "Eu para isso nasci e para isso vim ao mundo, a fim de dar testemunho da verdade” (João 18:37). Outra ocasião foi quando os discípulos lhe pediram que os ensinasse a orar, ao que ele prontamente respondeu com o modelo que conhecemos como Pai Nosso (Lucas 11:1). Além disso, Jesus respondeu a uma pergunta crucial de um fariseu sobre os maiores mandamentos da Lei, afirmando: "Ame o Senhor, seu Deus, de todo o seu coração, de toda a sua alma e de todo o seu entendimento" (Mateus 22:36-37).
De fato, as três perguntas que Jesus respondeu estão relacionadas a pilares essenciais da fé cristã: identidade e propósito, aprendizado e espiritualidade, e a essência do evangelho. Esses princípios são fundamentais não apenas para o entendimento da doutrina adventista, mas também para a conduta moral e espiritual dos seguidores de Cristo ao longo dos séculos.
Conclusão
As perguntas que Jesus fazia tinham sempre como objetivo a transformação espiritual das pessoas. Por meio delas, Ele estimulava o pensamento, desafiava crenças e inspirava uma busca mais profunda da verdade. Como seus seguidores, devemos aprender com seu exemplo e utilizar essa abordagem tão eficaz ao compartilharmos a Palavra de Deus com os outros. Que busquemos a sabedoria divina para fazermos as perguntas certas que levem o nosso próximo a uma compreensão verdadeira e profunda da verdade espiritual.




