Por que a hospitalidade é importante
Quando eu era recém-casada, fiquei admirada ao descobrir que a conhecida autora adventista Nancy Van Pelt morava na nossa nova cidade. Ela escreveu, entre outros, o livro Creative Hospitality (Hospitalidade Criativa).
Quando ela soube que eu havia conhecido uma de suas vizinhas que estava lutando contra o câncer, convidou todos nós para uma refeição em sua casa. Senti-me verdadeiramente honrada por estar sentada à sua mesa cuidadosamente preparada, saboreando a comida feita com tanto cuidado.
O que causou em mim uma impressão ainda mais profunda foi o prazer genuíno que ela demonstrava em compartilhar sua confortável casa no subúrbio, o interesse que demonstrava por todos nós e como desfrutava da comunhão. Ela chegou até a tirar uma foto do nosso grupo para poder se lembrar de nós.
Ao longo dos anos, trabalhei com meu marido no evangelismo estudantil por meio da literatura. Já batemos à porta de todos os tipos de casas, e as casas falam muito sobre as pessoas que vivem nelas.
Algumas respiram opulência; outras, nem tanto.
Algumas são organizadas e impecáveis, assim como seus moradores; outras, nem tanto.
Algumas são altamente personalizadas, com decorações sazonais, placas com nomes e pequenos cartazes; outras estão tristemente negligenciadas.
Mas todas são um lugar que alguém chama de lar.
Há algo especial em ir à casa de alguém. Ser convidado para o santuário de outra pessoa é uma oportunidade única de conexão.

A comida alimenta a comunhão
Você já percebeu como comida e comunhão frequentemente caminham juntas?
Na Ásia seria incomum — e talvez impossível — concluir uma transação comercial importante sem que as partes primeiro comam juntas.
Muitas vezes, na cultura ocidental, um encontro acontece com pizza ou sorvete, pois comer oferece a oportunidade de sentar, relaxar e se conectar de verdade.
Imagine uma festa de aniversário sem comida!
Quando essas duas coisas se unem — um convite para entrar em uma casa e sentar-se para uma refeição compartilhada — algo poderoso acontece.
Talvez seja por isso que Romanos 12:13 nos exorte claramente a “praticar a hospitalidade”.
Abra a porta
Nos tempos bíblicos, a hospitalidade era realmente necessária e tornou-se parte inerente da cultura.
Em um artigo intitulado Hospitalidade na Bíblia Hebraica (Hospitality in the Hebrew Bible), Peter Altmann explica:
“Pessoas longe de casa precisam de proteção, abrigo e alimento. Elas estão à mercê dos moradores locais. Em resposta, a Bíblia Hebraica estabelece como um valor central o cuidado hospitaleiro para com esses estrangeiros — sejam viajantes, refugiados (aqueles forçados a se deslocar) e até mesmo vizinhos (que são estrangeiros na residência do anfitrião).”¹
O próprio Jesus frequentemente precisou depender da generosidade de outros como pregador itinerante.
Certo dia encontramos Jesus no fértil oásis de Jericó, alimentado por fontes naturais, conhecida como a “Cidade das Palmeiras”, repleta de multidões a caminho da Páscoa em Jerusalém.
Nossos “binóculos” se concentram em uma pequena figura que se move rapidamente, correndo à frente da multidão e subindo em uma figueira, onde se senta e espera.
Como cobrador de impostos, esse homem não era nada popular.
As pessoas desprezavam cidadãos como Zaqueu, não apenas por serem desonestos, mas porque os consideravam traidores, trabalhando para os odiados romanos.
Além disso, quem imaginaria que um cobrador de impostos pudesse mudar?
Mas as coisas nem sempre são como parecem.
No fundo do coração, este homem rico — que aparentemente não precisava de nada — sentiu algo quando ouviu que um dos discípulos de Jesus também era cobrador de impostos.
Uma chama de esperança por uma vida melhor acendeu-se em seu coração.
Se ao menos eu pudesse ver Jesus pessoalmente, ele pensa.
Mas por que o grande Mestre judeu perderia tempo falando com alguém como eu?
Lá está ele, esperando na figueira, quando surpreendentemente a multidão agitada para bem debaixo dele. Então Jesus olha diretamente para ele e diz aquelas palavras famosas:
“Zaqueu, desce depressa, porque hoje me convém pousar em tua casa.”
(Lucas 19:5)
A excitação borbulha dentro dele enquanto ele desce rapidamente da árvore. Agora a multidão abre espaço para ele. O que mais poderiam fazer?
Todos começam a caminhar na direção da casa de Zaqueu. Mas espere — aquelas pessoas o conhecem, e ele sabe que as enganou.
Zaqueu aproveita esse momento de verdade e declara corajosamente a todos que dará metade de seus bens aos pobres e restituirá quatro vezes mais aquilo que tomou injustamente.
Agora a multidão está em choque.
Uma visita pessoal
Jesus entra na casa de Zaqueu — seu santuário.
Eles compartilham uma refeição, longe da agitação da multidão.
Ellen White escreve:
“Não somente Zaqueu foi abençoado, mas toda a sua casa com ele. Cristo foi ao seu lar para lhe dar lições de verdade e instruir sua família nas coisas do reino. Eles haviam sido excluídos das sinagogas pelo desprezo dos rabinos e adoradores; mas agora, a família mais favorecida de toda Jericó reunia-se em sua própria casa ao redor do divino Mestre e ouvia por si mesma as palavras da vida.”²
Esta foi uma visita pessoal. Jesus não enviou outra pessoa para ensinar Zaqueu — Ele mesmo foi. Quando veio salvar nosso planeta, Ele também veio pessoalmente. Todos sabemos que quando realmente queremos mostrar a alguém que nos importamos, nada substitui uma visita pessoal.
O FaceTime pode ajudar, mas a tecnologia não é a mesma coisa que o contato face a face. O contato visual é um importante sinal social que nos mostra que alguém está interessado e ouvindo.
Esse sinal “frequentemente está ausente na comunicação digital. Mesmo que você veja os rostos de seus colegas na tela, eles estão olhando para o seu rosto na tela deles, e não para a câmera. O contato visual direto é impossível com os equipamentos digitais atuais.”³
Depois de tantas pessoas terem dependido da comunicação digital durante a pandemia, o contato presencial tornou-se mais importante do que nunca. Os cientistas sociais dizem que a proximidade física fortalece relacionamentos. “Quanto mais perto você mora de outra pessoa, maior a probabilidade de se tornar amigo dela, apesar do uso crescente e do impacto das redes sociais.”⁴
Também é por isso que pessoas que fazem campanha para partidos ou candidatos políticos vão de casa em casa. Por quê? Porque funciona.
“A influência pessoal é um poder. Quanto mais direto for nosso trabalho em favor de nossos semelhantes, maior será o bem realizado. (...) Vocês precisam aproximar-se daqueles por quem trabalham, para que não apenas ouçam sua voz, mas apertem sua mão, conheçam seus princípios e percebam sua simpatia.”⁵
Convidando Jesus para entrar
Zaqueu estava cheio de alegria (Lucas 19:6). Ele mal podia esperar para que Jesus entrasse e estivesse com ele. Ele convidou Jesus para entrar completamente.
Ofereceu-lhe comida.
Comeu com Ele.
Ouviu suas palavras.
Agora eles tinham um relacionamento. Jesus entrou não apenas em sua casa, seu santuário, mas também em sua mente e em sua alma.
Ellen White diz: “É quando Cristo é recebido como Salvador pessoal que a salvação chega à alma. Zaqueu recebeu Jesus não apenas como um hóspede passageiro em sua casa, mas como Alguém que habitaria no templo da alma.”⁶
Assim como a glória Shekinah encheu o tabernáculo no deserto (Êxodo 40:34), a glória de Deus encheu Zaqueu naquele dia até transbordar. E Zaqueu cumpriu sua promessa de devolver aquilo que havia sido roubado. “A primeira resposta de Zaqueu ao amor de Cristo foi demonstrar compaixão para com os pobres e os que sofriam.”⁷
Jesus mal pode esperar para entrar e comer conosco — laodiceanos como somos — por isso Ele está à nossa porta e bate (Apocalipse 3:20). Aquele que mantém o universo em funcionamento deseja sentar-se em nossa casa e conversar conosco. Mesmo assim, às vezes, quando ouço essa batida, digo: “Minha casa está muito bagunçada. Não entre agora.” ou “Estou muito ocupado.” Mas percebo que, assim como Zaqueu, eu preciso do que Jesus tem. Por isso quero simplesmente dizer: “Entre, Jesus. Eu preciso de Ti.”
Heather Krick
Artigo publicado na revista "Together"- Issue Three 2023
Referências
- https://www.bibleodyssey.org/people/related-articles/hospitality-in-the-hebrew-bible/
- Ellen White, O Desejado de Todas as Nações, p. 556.
- https://theconversation.com/why-facetime-cant-replace-face-to-face-time-during-social-distancing-136206
- https://science.rpi.edu/itws/news/social-media-study-shows-proximity-strongest-predictor-friendship
- Ellen White, Evangelismo, p. 439.
- Ellen White, O Desejado de Todas as Nações, p. 556.
- Ellen White, O Desejado de Todas as Nações, p. 555.





