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Aborto

Imagem: Shutterstock

A discussão acerca do aborto se torna cada vez mais intensa, à medida que movimentos favoráveis à prática ganham maior projeção e a legislação de vários países tem aprovado esse procedimento. George Gainer (1991) demonstra que, na Igreja Adventista, até o fim da década de 1960, a posição contrária ao aborto era majoritária. Contudo, os anos de 1970 e 1971 viram o tema se tornar efervescente nos círculos adventistas norte-americanos, uma vez que passou a haver um descompasso entre o entendimento legal, a compreensão profissional (médica) e a posição denominacional sobre a questão. Oscilando entre uma posição mais conservadora (votada em 13/5/1970 e tornada pública) e outra mais liberal (votada em 25/1/1971 e mantida nos círculos institucionais), a sede mundial da Igreja Adventista finalmente aprovou, em 1992, um documento que buscou ser teologicamente consistente em relação a esse assunto complexo.

O documento, intitulado “Aborto” (2012, p. 219-222), apresenta uma seção denominada “Princípios para uma visão cristã da vida” (p. 221, 222), que enuncia 11 itens. Apresentaremos alguns deles de maneira resumida: (1) “Deus é a Fonte, o Doador e o Mantenedor de toda a vida” (At 17:25, 28; Gn 1:30; 2:7; Sl 36:9; Jo 1:3, 4); (2) “A vida humana tem valor único, pois os seres humanos, embora caídos, são criados à imagem de Deus” (Gn 1:27; 1Jo 2:2; 3:2; 1Pe 1:18, 19); (3) “Valiosa como é, a vida humana não é a única e última preocupação. O sacrifício próprio em devoção a Deus e aos Seus princípios pode tomar precedência sobre a vida” (Ap 12:11; 1Co 13); (4) “Deus nos chama para a proteção da vida humana e responsabiliza a humanidade por sua destruição” (Êx 20:13; Ap 21:8; Dt 24:16; Pv 6:16, 17; Mq 6:7; Gn 9:5, 6); (5) “Deus está especialmente preocupado com a proteção do fraco, indefeso e oprimido” (Sl 82:3, 4; Tg 1:27; Mq 6:8; At 20:35, Lc 1:52-54); (6) “O amor cristão (ágape) é a valiosa dedicação de nossas vidas para elevar a vida de outros. O amor também respeita a dignidade pessoal e não tolera a opressão de uma pessoa para apoiar o comportamento abusivo de outra” (Mt 16:21; Fp 2:1-11; 1Jo 3:16; 4:8-11); (7) “Deus dá à humanidade a liberdade de escolha, mesmo que isso conduza ao abuso e a consequências trágicas” (Dt 30:19, 20; Gn 3; 1Pe 2:24; Rm 3:5, 6; 6:1, 2); (8) “Deus convida cada um de nós individualmente a fazer decisões morais e a buscar nas Escrituras os princípios bíblicos que fundamentam tais escolhas” (Jo 5:39; 1Pe 2:9; Rm 7:13-25); (9) “Decisões sobre a vida humana, do início ao fim, devem ser tomadas no contexto de relacionamentos familiares saudáveis, com o apoio da comunidade de fé (Êx 20:12; Ef 5:6, 12). As decisões humanas devem ser sempre centralizadas na busca da vontade de Deus (Rm 12:2; Ef 6:6; Lc 22:42)”.

Com base nesses pontos, o documento aprovado se propõe a ser “uma tentativa de prover orientações quanto a uma série de princípios e temas”, refletindo a “responsabilidade e a liberdade cristãs” defendidas pela Igreja Adventista (p. 219). Alguns itens são relevantes para nortear a discussão do assunto nas publicações denominacionais: (1) “O ideal de Deus para os seres humanos atesta a santidade da vida humana, criada à imagem de Deus, e exige o respeito pela vida pré-natal. […] O aborto somente deveria ser praticado por motivos muito sérios”; (2) “O aborto é um dos trágicos dilemas da degradação humana. As atitudes condenatórias são impróprias para os que aceitaram o evangelho. Os cristãos são comissionados a se tornar uma comunidade de fé amorosa e carinhosa, auxiliando as pessoas em crise ao considerarem as alternativas”; (3) “De forma prática e tangível, a igreja, como uma comunidade de apoio, deve expressar seu compromisso de valorizar a vida humana. Isso deve incluir: (a) ‘O fortalecimento do relacionamento familiar’; (b) ‘Instrução de ambos os sexos quanto aos princípios cristãos da sexualidade humana’; (c) ‘Ênfase na responsabilidade do homem e da mulher no planejamento familiar’; (d) ‘Apelo a ambos para que sejam responsáveis pelas consequências dos comportamentos incoerentes com os princípios cristãos’; (4) “A igreja não deve servir como consciência para os indivíduos; contudo, ela deve oferecer orientação moral. O aborto por motivo de controle natalício, escolha do sexo ou conveniência não é aprovado pela igreja. Contudo, as mulheres, às vezes, podem se deparar com circunstâncias excepcionais que apresentam graves dilemas morais ou médicos, como: ameaça significativa à vida da mulher gestante, sérios riscos à sua saúde, defeitos congênitos graves cuidadosamente diagnosticados no feto e gravidez resultante de estupro ou incesto. A decisão final quanto a interromper ou não a gravidez deve ser feita pela mulher grávida após o devido aconselhamento”; (5) “Os membros da igreja devem ser incentivados a participar no desenvolvimento das considerações de suas responsabilidades morais com respeito ao aborto à luz do ensino das Escrituras.”

 

Princípios editoriais

  1. Os materiais da igreja defendem a santidade da vida humana e não promovem o aborto em nenhuma publicação. No entanto, há situações excepcionais em que o aborto pode ser moralmente justificável.
  2. Ao tratar do aborto em situações extremas, como ameaça significativa à vida da gestante, sérios riscos à sua saúde, defeitos congênitos graves cuidadosamente diagnosticados no feto e gravidez resultante de estupro ou incesto, é preciso ter cuidado para não impor um peso espiritual, emocional e social adicional aos envolvidos com essa decisão.
  3. É importante deixar claro que o aborto por motivo de controle de natalidade, escolha do sexo ou conveniência não é aprovado pela Igreja Adventista.
  4. Os materiais da igreja devem prover orientação para que seu público fortaleça seus relacionamentos familiares, compreenda a perspectiva bíblica sobre a sexualidade, seja responsável em relação ao planejamento familiar e também quanto às consequências de comportamentos opostos aos princípios das Escrituras.

 

Bibliografia

Associação Geral da Igreja Adventista do Sétimo Dia. (2012). Aborto. Em Declarações da igreja (p. 219-222). Tatuí, SP: Casa Publicadora Brasileira.

 

Gainer, G. (1991, agosto). Abortion: History of Adventist guidelines. Ministry, 11-17.

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