Evangelismo

Evangelismo na Divisão Sul-Americana

De Walter Schubert ao Evangelismo Integrado

Marcos Blanco, editor de Logos, periódico acadêmico da Universidade Adventista de River Plate sobre estudos bíblicos e teológicos, lembrou os leitores, em 1997, de algumas das primeiras experiências metodológicas. Recordou o evangelismo de Walter Schubert, que marcou uma era e apontou para a questão-chave de resolver o problema de realizar evangelismo protestante numa sociedade católica.

“As campanhas começavam com 100 ou 150 não adventistas”, disse Blanco, descrevendo uma reunião evangelística tradicional, “mas, ao receber hinários, as pessoas começavam a tremer, pois se davam conta de que estavam em um culto protestante. Muitos se retiravam do salão imediatamente, e os demais não volta- vam a assistir.”

Ao deixar de lado o aprisionamento protestante e ao começar a proferir palestras, em vez de sermões, às vezes precedidos por concertos de música clássica, Schubert quebrou o gelo. Ele iniciava temas bíblicos apenas depois de criar um vínculo com o público por meio de observações sobre acontecimentos atuais, questões sociais e familiares.

Salim Japas, evangelista sul-americano que trabalhou intensivamente na Divisão Interamericana, considerou o impacto de Schubert tão significativo que o transformou no tema de sua tese doutoral. De acordo com Japas, os métodos de Schubert se espalharam para outros continentes e, até 1978, haviam produzido cerca de 50.000 batismos. Rubén Pereyra, secretário da Associação Ministerial da Divisão Sul-Americana, sugeriu que o relaxamento nas atitudes católicas após o Concílio Vaticano II também contribuiu para uma atmosfera favorável ao evangelismo. Os católicos passaram a considerar os protestantes “irmãos distantes”, em vez de vê-los como hereges, e a Bíblia, um valioso livro de estudo por motivos pessoais.

Os métodos de Schubert acarretaram uma mudança sistêmica no processo de ganhar almas na América do Sul. Embora tenha sido a tensão catolicismo-protes- tantismo que desencadeou os experimentos de Schubert, o princípio resultante foi o de planejar métodos evangelísticos compatíveis com as pessoas que se intencionava alcançar. Conforme as experiências demonstraram, era tão imprudente ignorar a inclinação religiosa dos públicos sul-americanos quanto seria começar a instrução aos nativos analfabetos com uma discussão profunda sobre a filosofia platônica.

A fim de realizar seu plano, Schubert abandonou o modelo evangelístico que os líderes da igreja haviam transplantado da América do Norte para o solo sul- americano. Quando começaram os Mil Dias de Colheita em 1980, outra geração de evangelistas ampliou os primeiros experimentos de Schubert para um amplo espectro de atividades que o pioneiro dificilmente poderia imaginar, mas a prática de adaptar o formato do evangelho, a fim de se adequar às necessidades do público era sempre o princípio subjacente ao método evangelístico. Essa técnica se espalhou para outros setores. Após transmitir o bem-sucedido programa de rádio adventista com o título traduzido literalmente, La Voz de la Profecía, os líderes hispânicos alteraram o nome para La Voz de la Esperanza. Milton Peverini, que sucedeu Braulio Pérez na locução e direção do programa, diz que a mudança levou em conta a mentalidade hispânica, uma evidência de que a cultura local ajudava a dar forma ao evangelismo adventista.

O tempo levou a modificações ainda maiores no evangelismo. Alejandro Bullón, evangelista público na América do Sul no fim do século 20 e início do século 21, explicou que, na década de 1990, o foco mudou do evangelista em si e de sua equipe, o que exigia grandes despesas e muita propaganda. “Hoje, os recursos devem ser canalizados para inspirar, desafiar e capacitar os membros”, disse Bullón.

Os líderes da Divisão cunharam a expressão “evangelismo integrado” para designar o novo processo. Todavia, nem essa ideia, nem a convicção de entrar em áreas inalcançadas era nova. Em 1944, a União Norte-Brasileira votou organizar o ramo de cuidados médicos da igreja em iniciativas para ganhar almas, “intimamente integrado com os esforços de evangelização”, dizia o voto. O plano era usar a profissão médica para ajudar a entrar nos lugares mais difíceis e nas comunidades sem presença adventista.

Durante os anos de 1960, o evangelista brasileiro Alcides Campolongo organizou uma equipe de profissionais da saúde e de intelectuais para auxiliá-lo em programas de recuperação de alcoólatras e cursos para deixar de fumar em cinco dias. Provavelmente, a maior diferença entre esses esforços e os realizados após 1980 seja que, na data posterior, a Divisão Sul-Americana já contava com mais ferramentas para empregar no evangelismo. Isso significa que o processo de integração de forças era muito mais complexo e impressionante.

Esse processo ficou evidente quando João Wolff e Ruy Nagel encheram os re- latórios à Associação Geral com alusões à abrangência do evangelismo integrado sul-americano durante os Mil Dias de Colheita, a Colheita 90 e a Missão Global. Termos como “evangelismo metropolitano”, “Projeto Pioneiro”, “reuniões da Semana Santa”, “unidades de ação”, “Caravana do Poder”, “batismo da primavera” e outros acrescentaram uma nova dimensão ao trabalho evangelístico no campo.

A maioria dessas expressões representava formas diferentes encontradas pelos evangelistas de adaptar suas técnicas à sociedade sul-americana, que, além de remontar a Walter Schubert, também demonstrava como os líderes da igreja utilizavam os diversos recursos a seu dispor para ganhar almas. Essas atividades não surgiram de uma só vez, mas se desenvolveram ao longo do tempo.

A variedade de ações gerou um poderoso ímpeto e se encaixou nas singulari- dades da sociedade sul-americana. Wolff observou: “Por causa da forte influência católica em toda a América do Sul, atribuímos grande importância à celebração da Semana Santa”. As igrejas adventistas se aproveitaram dessa tradição e passaram a organizar séries especiais de reuniões públicas com ênfase nos temas da semana do Calvário. “Milhares de pessoas se reúnem para ouvir mais sobre o Senhor ressurreto, que está prestes a voltar a este mundo”, disse ele. Nagel acrescentou que, para milhares de pessoas, a Semana Santa era a primeira vez que ouviam sobre o Salvador crucificado que retornará. Algumas igrejas descobriram que esse momento também beneficiava a congregação em si, levando ânimo aos membros e, às vezes, um bálsamo de cura aos desanimados e litigiosos.

Wolff e Nagel não estavam exagerando em seus relatos. Em Lima, Peru, a Semana Santa de 1982 produziu uma campanha que envolveu 160 centros evangelísticos pela cidade e centenas de leigos que ajudaram durante as reuniões. O primeiro batismo resultante do esforço ocorreu numa piscina olímpica.Vinte pastores realizaram a cerimônia. Havia 8.000 espectadores. Não se tratava de um evento particular. A igreja usava a mídia, com antecedência, para explicar o que aconteceria. Quando o programa terminou, o público presente foi informado de que a União Incaica recebera 356 novos membros.

Às vezes, a Semana Santa e o plantio de igrejas caminhavam juntos. Um plano conhecido em toda a Divisão como Projeto Pioneiro convidava entre quinze e vinte membros de uma igreja maior, às vezes uma classe da Escola Sabatina, a se separar de sua congregação, escolher um local para realizar as reuniões da semana do Calvário e continuar com cultos de sábado, na forma de pequeno grupo. “As unidades saem para nunca mais voltar”, explicou Wolff, dizendo que o Projeto Pioneiro era uma das maneiras mais eficazes de fundar uma nova congregação. Durante os primeiros cinco anos de Missão Global, membros leigos realizaram mais de 150.000 séries durante a Semana Santa.

Outro desdobramento do conceito de contextualização do evangelismo desen- volvido por Schubert foi a participação no Dia de Finados, feriado separado para

homenagear os parentes falecidos. Em vez de convidar o público para um sermão poderoso que mostraria de forma direta a verdade bíblica sobre os mortos, muitos jovens adventistas iam até os cemitérios nessa data e demonstravam empatia às famílias enlutadas, cantando hinos e oferecendo esperança e conforto. Nesse processo, também distribuíam literatura apropriada. Esse gesto não garantia o surgimento de conversos, mas demonstrava um apoio simpático e cristão, de uma maneira culturalmente compatível, e plantava sementes que costumavam despertar interesse.

Uma das principais ideias enfatizadas por Wolff era o evangelismo metropolitano com o lema “Semear, Colher, Conservar”, estandarte evangelístico em torno do qual giravam planos eficazes de ganhar almas. O ideal era que o evangelismo metropolitano envolvesse cada congregação, instituição e todos os departamentos da igreja na área onde ocorria uma série de reuniões. Wolff afirmou que o evangelismo metropolitano se tornara a pedra fundamental do ciclo de semear, colher e conservar.

O evangelismo metropolitano era um plano coordenado, voltado para os centros urbanos, que se encaixava bem na antiga tradição de campanhas para ganhar almas em grandes cidades, promovidas pelos líderes da igreja na América do Sul desde os dias de Carlyle B. Haynes. Mas esse método também restringia a energia evangelística de indivíduos e congregações, pois pressupunha a pregação para grandes públicos. A noção de coordenar atividades variadas se tornou um fator-chave na noção que se desenvolvia de crescimento de membros. Antes de Ruy Nagel suceder Wolff na presidência da Divisão, o termo evangelismo integrado se tornou a definição padrão dessa atividade evangelística. Nagel disse que essas duas palavras “resumem nossa filosofia de trabalho”. “Acabou o tempo em que os departamentos da igreja só se preocupavam com os assuntos de sua área”, afirmou certa vez. “Temos dois departamentos que movem a igreja: o Ministério Pessoal, que envolve todos os membros, e a Associação Ministerial, que orienta e capacita pastores e anciãos”.

O evangelismo integrado ajudara a criar um modo preponderante de ganhar almas que ficou claro em outubro de 2001, quando os líderes da igreja de toda a Divisão se reuniram no Brasil para um debate e uma sessão de planejamento. Na época desse encontro, os membros da igreja de Teresina, a capital do Piauí, e de Timon, comunidade próxima, estavam terminando uma campanha de dez meses, durante a qual 2.200 pessoas foram batizadas. Melchor Ferreyra, presidente da União Peruana, observou que, no evangelismo integrado, os membros da igreja estavam unidos em torno de um programa, não simplesmente de um lema. O rei- tor da Universidade Adventista da Bolívia exprimiu sua satisfação ao notar que os

líderes da igreja esperavam que as instituições não só desempenhassem um papel no evangelismo, mas que aceitassem esse papel como uma missão. Sem dúvida, foi com esse ideal em mente que a Universidade Adventista do Chile realizou o batismo de 57 pessoas no sábado à tarde de comemoração do centenário da instituição, um lembrete inesquecível do grande propósito da educação adventista.

O evangelismo integrado não era apenas mais um slogan. Quando o concílio da Divisão se reuniu em Brasília em 2005, Nagel anunciou: “O foco deste encontro é a filosofia de trabalho dos departamentos da igreja”. A Revista Adventista registrou que todos os relatórios deixaram claro que cada departamento trabalhava para o crescimento da igreja e a conservação dos membros. “Os resultados são uma prova de que trabalhamos unidos”, resumiu Nagel. O tema continuou em Foz do Iguaçu, na ocasião em que a sessão de planejamento da Divisão estabeleceu novos objetivos para os cinco anos seguintes.

Os acontecimentos confirmaram as declarações de Nagel. No lado andino do con- tinente, as Caravanas da Esperança incorporaram o ideal do evangelismo integrado e obtiveram resultados sem precedentes. O nome do projeto se devia ao fato de que os evangelistas viajavam por um itinerário pré-estabelecido de cidades nas quais paravam, em geral, para uma só pregação, até terminar a jornada numa grande cidade. Em 2003, uma Caravana do Poder na região do lago Titicaca envolveu a visita de enfermeiras, médicos e pastores adventistas, e terminou em Puno, com uma série de reuniões.

No ano seguinte, Alejandro Bullón começou uma caravana que o conduziu a 24 cidades peruanas. Ele integrou a ADRA ao seu planejamento e oferecia assistência médica gratuita pelo caminho. Segundo a Revista Adventista, o evento gerou mais de 37.000 batismos. A Revista logo destacou que, além do planejamento logístico que durou meses, o ensino e o preparo espiritual dos futuros membros também ocorreram ao longo de um extenso período. A caravana era a atividade de fechamento. “A ideia foi o preparo da consciência de todos os interessados durante os meses prévios”, explicou a Revista Adventista. Quando Bullón fazia os apelos para as pessoas entregarem a vida a Cristo, a maioria dos conversos já havia se decidido pelo batismo, embora seja verdade que alguns fizeram essa escolha no momento do chamado.

Em 2005, Bullón se uniu a Guido Quinteros, presidente da União Chilena, para a realização de uma Caravana da Esperança dupla no país. Bullón e sua equipe começaram no sul, em direção ao norte, enquanto Quinteros iniciou com sua equipe no norte, em direção ao sul. Os dois oradores se encontraram no estádio nacional em Santiago, em 26 de novembro, onde cerca de 45.000 se reuniram para ouvir Armando Miranda, um dos vice-presidentes da Associação Geral. No campo, 35 piscinas de plástico formando uma cruz foram o cenário para 70 pastores batizarem mais de 600 novos conversos. No caminho até Santiago, as duas equipes colaboraram com a Cruz Vermelha chilena, coletando mais de 2.000 litros de sangue e mais de 5.000 compromissos de doar órgãos para pacientes em espera de transplante.22 Em 2006, Bullón liderou outro “evento evangelístico itinerante” que começou em Cuzco, no sul do Peru, e prosseguiu para Puno, Juliaca, Arequipa, Lima, Trujillo e chegou ao auge em Chiclayo. Ele deu continuidade à caravana no Equador. Seis meses antes da Caravana da Esperança, as igrejas locais já estavam preparando o caminho, por meio de atividades comunitárias e de outras iniciativas evangelísticas.

As Caravanas da Esperança também envolviam personalidades visitantes, como em 2005, quando Mark Finley pregou na grande reunião de encerramento em Lima, Peru. Finley e Roberto Costa, orador da versão hispânica do Está Escrito, falaram ao público em Arequipa, Moquegua, Tacna, Ilo e Trujillo. A última parada foi no Estádio Monumental em Lima, onde uma audiência estimada em 55.000 ouviu o vice-presidente da Associação Geral e ex-orador do Está Escrito. Os organizadores da caravana acreditam que aproximadamente 135.000 pessoas ouviram o pastor Finley em todos os lugares. Essa campanha nacional trouxe mais de 34.000 novos membros para a igreja.

Essas reuniões evangelísticas de imensas proporções, além de trazer grande número de conversos, também suscitavam muita divulgação favorável da igreja, em especial quando os organizadores incluíam projetos cívicos voltados para o bem-estar público, fato que Miranda rapidamente identificou após a passagem da Caravana da Esperança pelo Chile. Além disso, as caravanas envolvem milhares de membros no trabalho prévio, que começa meses antes do itinerário. No caso da ida de Finley ao Peru em maio de 2005, quase 13.000 grupos chamados de unidades de ação já se reuniam desde dezembro do ano anterior, a fim de preparar membros em potencial para o batismo. O grande envolvimento dos membros deslumbrou Finley, que descreveu o que presenciara como o evangelismo se tornando “um estilo de vida. Não é um programa, nem um evento, mas uma forma de viver”, afirmou.